E se uma irmã ou filha sua estivesse numa revista pornô?
Nós gostamos de pornografia (a normal, esclarecemos), defendemos o sexo sem relacionamento estável (não o casual) e defendemos o casamento aberto. Sobre cada assunto já escrevemos especificamente1. Mas e se em uma revista, uma foto ou um vídeo pornográfico estivesse uma filha ou irmã nossa? Ou se descubríssemos que o trabalho dela, que ela dizia ser outro, fosse como prostituta ou stripper? Ou se ela mesma nos dissesse que faria um material pornográfico ou trabalharia com o corpo? Antes de dar a nossa resposta, vamos fazer algumas considerações para que o leitor a entenda.
Há os que gostam de “azarar” e de materiais “impróprios para menores”, mas crêem que as moças da sua família são diferentes. Isso se chama arrogância. A maioria das pessoas tem a tendência de se achar com mais direitos que o resto da humanidade. É o caso do homem “caçador”, que se acha merecedor de transar com todas as mulheres atraentes que puder encontrar, ou ver os seus corpos sempre que conseguir. Cada vez que consegue, é um troféu para ele. E esse mesmo “caçador” das filhas e irmãs alheias é “protetor” das suas. Então, quando a filha ou irmã transa com o namorado… a coisa se inverte. O caso é diferente, a moça é da família dele, é pra casar. Qualquer palavra entre ela e um homem atrai o medo de que a fêmea da casa do “caçador” seja a caça de alguém, já que, se não tomamos cuidado, projetamos nossos próprios erros em outras pessoas. O que também ajuda a explicar é que temos uma visão diferente dos nossos pais, dos nossos irmãos e dos nossos filhos, nem sempre os vemos como indivíduos com uma individualidade, como o resto da humanidade.
Há os que gostam de pornografia, mas dividem as mulheres em mulheres que têm valor e mulheres que não têm valor, valor esse ditado na contramão de sua vida sexual, e esperam que as da sua família estejam no primeiro grupo. Isso se chama machismo. E o homem machista é contraditório. Se todas as mulheres fossem liberais, eles protestariam contra a falta da moral e dos bons costumes. Se todas as mulheres fossem puritanas, e seus maridos machistas, eles dificilmente veriam ou conversariam com uma mulher que não fosse da família ou sua esposa, e a maior compensação para o marasmo da vida social e sexual que isso lhes traria seria a esposa não confirmar que o pênis pequeno, as disfunções sexuais, o corpo disforme e os modos grosseiros do marido não são o melhor que ela pode encontrar. E esse “machão” é “protetor” das suas filhas e irmãs.
E há os que ligam a relação entre homem e mulher a um relacionamento estável e não gostam de pornografia. Isso se chama puritanismo. Isso não é exatamente respeito à mulher e disciplina do desejo sexual, o que é bom e nós também temos. Isso é repressão sexual, mesmo quando não chega a neurose. Esses têm um conceito do sexo altamente negativo. Não disse o apóstolo Paulo que “bom seria que o homem não tocasse em mulher” (I Co 7. 1)? Se o sexo é admitido dentro do casamento, é porque só a pureza da instituição do casamento supera, ou chega perto de superar, a imundice da prática e do desejo sexuais. A visão do sexo como pecaminoso fora do casamento ou, conforme for, mesmo dentro dele é um instrumento para a dominação do fiel pelo sentimento de culpa ou pelo exercício da estupidez, mas esse é outro assunto.
Vamos supor que demonstrar gosto pelo sexo ou uma postura desinibida em relação ao corpo seja a maior mácula moral para uma mulher. As mulheres que figuram na pornografia são a maioria mulheres “comuns” do dia-a-dia. Veja bem: não são ninfomaníacas que se passam por mulheres “decentes”, mas mulheres como a vizinha ou a balconista. Muitas fazem esses materiais pelo dinheiro que é pago. Para citar um exemplo, Rita Cadillac fez alguns vídeos pornôs pelo dinheiro, mas parece não ter gostado muito da experiência.2
Agora, vamos responder as perguntas. E se uma filha ou irmã nossa estivesse num material pornográfico e descubríssemos ao acaso? Não deixaria de ser uma surpresa, mas nada de indignação. E se ela dissesse antes que estaria nesse material? Talvez faríamos algumas perguntas e veríamos o material depois. Em ambos os casos, poderíamos gostar ou não de acordo com o material em si. E não mostraríamos aos nossos parentes, amigos e conhecidos, pelo menos nao todos, porque nem todos teriam a mesma mentalidade que nós. E se ela fosse prostituta ou stripper e descubríssemos por acaso, ou se ela mesma nos dissesse que entraria em um desses trabalhos? Teríamos preocupação com ela estar com homens que não respeitam a mulher, que podem incluir o vizinho carola que proíbe a filha de usar batom. É isso. Ver a filha ou a irmã numa revista pornográfica ou trabalhando como prostituta para nós não é o fim do mundo. E pra você?
Imaculada Virgínia Pereira Souto e Walter Nunes Braz Júnior
http://semsenhores.wordpress.com/2009/07/29/irma-ou-filha-sua-numa-revista-p/
1 Sobre casamento aberto, “Você aceitaria um casamento aberto?” (http://semsenhores.wordpress.com/2007/12/16/voce-aceitaria-um-casamento-aberto/); sobre relacionamento sexo-e-amizade, “Sexo e amizade” (http://paraisoconcreto.blogspot.com/2009/05/sexo-e-amizade.html); sobre pornografia, “Mostrando a pornografia como ela (não) é” (http://oreinodedeus.wordpress.com/2009/07/15/mostrando-a-p-como-ela-nao-e/).
2 “Rita comentou sobre os filmes pornográficos que protagonizou. ‘Fiz por necessidade, precisava de dinheiro. Mas valeu para ver que aquilo não era o que queria para mim’.” (O GINGADO de uma ex-chacrete poderosa. Super Notícia, 15 de janeiro de 2009. Disponível em <http://www.otempo.com.br/supernoticia/noticias/?IdNoticia=22238>. Seção Variedades. Acesso em 22 de julho de 2009.)
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